Estamos conhecendo dois: Severino Cavalcanti e José Dirceu. O primeiro irá negar, negar e negar, três vezes, para que a mentira torne-se verdade, buscando, enfim, um sopro de vida e continuidade do mandato à frente da Câmara dos Deputados. O segundo, mais sinuoso, esgueirou-se através do silêncio para negociar pequenas falhas jurídicas, pontos de tensão, para, enfim, buscar um mínimo de redenção. Um verdadeiro paradoxo para quem um dia almejou a presidência ou talvez nem isso, mas estar ao lado do poder, ser uma espécie de voz da consciência, um arremedo do grilo falante. Ambos irão negociar as mentiras até o fim, como num jogo de pôquer, vão usar todas as cartas, todos os artíficios. Uma aula de política mesquinha e pequena.
Desbravando o vasto oceano das ideias. Profissão e vida: literatura, artes, leitura, programação de jogos digitais e modelagem 3D.
10 de set. de 2005
9 de set. de 2005
Sombras da morte em "A queda! Os últimos dias de Hitler"
Fiquei impressionado com o filme. Bruno Ganz interpreta Hitler com um vigor e temor que nos choca. Porém chocante mesmo é o suicídio, a sombra da morte que percorre por todo o filme, e o ato patético em si, pelos olhos de quem idolatrava Hitler, arruinado, Eva Braun alucinada, ambos negando veemente a realidade que os permeia: a guerra acabou, tudo foi destruído, todos os sonhos de grandeza. Seus generais completamente aturdidos, entregues aos delírios do álcool e aos impropérios do Füher. O suicídio, como ato final dessa loucura que foi a 2ª Guerra Mundial, surge carregado de alívio, enfado, temor e com um peso niilista que esmaga e sufoca quem assiste ao filme. A negação da esperança com o assassinato dos filhos de Goebbels, perpetrada pela esposa, num ato de louvor ao Nazismo foi, para mim, terrível. Assim como o garoto, jovem soldado que recebe uma medalha do Füher por ato de bravura, que percebe, ao ver os amigos mortos, seus companheiros de infância e de luta, despe-se do manto da guerra e retorna ao lar com uma espécie de filho pródigo. E por tratar-se de uma loucura, tem os pais mortos pelos próprios soldados alemães, caminhando para um mundo sem sentido. Sente-se no corpo decadente de Hitler o ódio não mais por judeus, mas por toda a humanidade como a derrocada final. O filme segue a trama aos olhos da jovem secretária de Hitler. Aliás, inicia-se o filme com o depoimento da secretária nos dias atuais e encerra-se com um mea culpa honesto e sensível, de quem, deslumbrada com o mundo e a curiosidade juvenil de estar no centro da história, ao trabalhar com o ditador, não se apercebeu da violência e do banho de sangue, inadmissível em sua própria opinião, que manchou para sempre a Alemanha.
8 de set. de 2005
O espetáculo da seleção brasileira
Não tenho dúvidas de que hoje a seleção só perde para ela mesma. Não importa nem se vai jogar com os quatros (carinhosamente chamada de “Quarteto Fantástico”) ou os cinco. Simplesmente não há adversário que tenha o mesmo plantel (palavra interessante essa) que o nosso time. Concentrada para uma partida, como a que realizou com o Chile, deverá esmagar os times inferiores (ainda existem) em poucos minutos e descansar ao longo da partida. Como no auge das lutas do Mike Tyson. Queriam espetáculo? Em segundos, Tyson destruía seus inimigos. Não havia tempo para isso. Espetáculo somente nos primeiros filmes de Rocky, estrelado por Silvester Stallone. Com a seleção teremos espetáculo até os 40 minutos do primeiro tempo. Depois de morto o inimigo, como nas grandes batalhas, o repouso do guerreiro ao longo do segundo tempo. Hoje o maior inimigo é a vaidade e a presunção. Na imprensa há o comentário de que esta é a melhor seleção de todos os tempos. Ainda não. Para mim, foram três: a de 70, que nunca assisti (ainda era um projeto de vida), mas percorre todo o imaginário dos brasileiros e estrangeiros (vide a homenagem que o diretor britânico Ken Loach realizou no filme “Meu nome é Joe”) com uma vitalidade impressionante; a de 1982, assistida, e que até hoje me emociona; a de 2002, que daria um belo filme com a seguinte sinopse: seleção desacreditada, com o ídolo Ronaldinho tendo que provar para si mesmo e para o mundo a sua recuperação, supera todas as adversidades em um belíssimo campeonato. Fosse um esporte consagrado nos EUA, Hollywood já teria filmado. Aguardemos a Copa do Mundo, portanto, o apito para o início do jogo. Nesse momento da partida, o ponto zero, a verdadeira batalha não será mais travada no campo mas na mente dos jogadores.
5 de set. de 2005
Katrina e o verniz da Humanidade
Duro ver New Orleans arrasada pelo furacão Katrina. Tira-nos a certeza de que, definitivamente, não há lugar seguro no mundo. E temos que conviver com a incerteza do mundo que o Capitalismo tanto escondeu e lutou para disfarçar através de suas falsas benesses. Pior ainda foi saber que, através dos estupros, saques, falta de segurança na cidade, suicídios, tantas e tantas mortes caiu o verniz da humanidade. Sim, bastou arrancar o mínimo de vestígio civilizatório para vermos a bestialidade do homem. Ser humano ainda é uma utopia. Para ver como vai acabar tudo isso recomendo a leitura do romance de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, Companhia das Letras. Não ocorre a fúria de um furacão no livro, mas uma crise de valores, na minha opinião, idêntica. Também acredito que os orientais tenham muito para nos ensinar, sobre como nos comportar diante de uma tragédia como essa, haja vista a destruição provocada pelas monções, todos os anos.
1 de set. de 2005
Descobrindo Balzac
Nunca tinha lido Balzac. Comprei um livro do autor no original, La Maison du Chat-qui-Pelot, para manter em dia o meu francês, na verdade, quero melhorar meu domínio sobre o idioma (rssss). Deparei-me com uma história de vida interessante: o escritor foi uma verdadeira máquina literária, uma produção de causar inveja a qualquer um, sofreu por um amor que só pôde ser consumado já perto de sua morte; e mais, procurou sempre defender a mulher da opressão da sociedade, baseado no convívio com suas irmãs, mais especificamente Laurence. Tem sido uma leitura difícil, junto com dicionário, sempre, mas bastante prazerosa. Chama a atenção do leitor o papel da descrição no texto de Balzac. A descrição das roupas dos personagens, nos mínimos detalhes, por exemplo, estão associadas a características psicológicas, como num corpo só. Difícil separar o físico do psicológico. Autores contemporâneos não fazem isso. Poucos trabalham com a descrição, buscando a palavra certa, com o objetivo de traçar uma característica. Muitos vão dizer que hoje o romance moderno jogou a descrição, técnica de produção de texto, para escanteio. Importante a sugestão, a cortina de fumaça. Concordo. Mas ler Balzac, até o momento, tem sido também uma lição de técnica literária. Nada está solto no texto. Aliás, como disse Autran Dourado, o escritor precisa conhecer as palavras comuns, dominar o substantivo que dá nome ao mundo, na minha opinião, descrever, descrever, descrever...
29 de ago. de 2005
Longa ausência
Após um tempo longe do blog, passando ao largo... Resolvi postar baseado na frase em que a raposa diz ao pequeno príncipe (sim, O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupèry). "A espera aumenta o desejo"...
4 de ago. de 2005
cinema e videogames
Não sou fanático por videogames, mas preciso dizer que as narrativas que introduzem aos jogos, que acompanham o jogador ao longo da disputa, estão cada vez mais elaboradas. Para uma nova geração que não estabeleceu contato com a literatura, acredito que os videogames mais elaborados são hoje o que podemos chamar de best-sellers. Existe uma geração eletrônica que não somente joga, mas "lê" e curte as narrativas dos jogos, narrativas essas baseadas na estrutura mítica do herói (devo falar mais tarde sobre esse assunto). Hollywood já percebeu o nicho e começa a trazer uma safra de jogos para o cinema. Por muito tempo as produtoras utilizavam adaptações literárias, biografias e narrativas de roteiristas da casa. Existe hoje na indústria americana de cinema um setor de pesquisa para novas mídias, que busca novas alternativas para criação e fonte para roteiros de filmes. Estão em vista produtos eletrônicos como bonecos, bonecas, carros ( a série Wheels de carros de corrida também vai virar filme), histórias em quadrinhos, e, não poderíamos deixar de dizer, videogames. Estão para sair "Doom", entre tantos outros (saiu recentemente em DVD " Alone in the dark"). São todos filmes fracos, a maior preocupação ainda são com efeitos especiais. Imagino que com o tempo surjam roteiristas de boa paga para cuidar desses filmes.
22 de jul. de 2005
A montanha da alma
Só o título já merecia a leitura do livro. A montanha da alma, de Gao Xingjian, da Objetiva, é um romance que contempla a China nos anos 70. Gao Xingjian é radicado na França e foi vencedor do prêmio Nobel de 2000. A história é ínfima: um viajante percorre o interior da China em busca da "Montanha da alma". A narrativa é sustentada por diversas vozes em 1a, 2a e 3a pessoas, e formas literárias diversas como o relato, o ensaio, canções populares. De fato, os personagens estão submetidos à estrutura do romance, a preocupação é discutir a cultura chinesa os dramas do Homem referentes à morte, nascimento, arte. É uma obra aberta, dividida em pequenos capítulos que poderiam continuar quase que infinitamente ( um problema apontado por Massaud Moisés, crítico literário. O drama do romance não é começar mas terminar!). Essa multiplicidade de vozes, de início, confundem o leitor, porém ao longo do texto o próprio narrador explicita sobre o assunto: existe somente um Eu, dividido em várias vozes. Vale a pena ler não somente para conhecer a China cultural, mas principalmente pelo trabalho de artesão so escritor. Aliás, não é à toa que o autor trabalhou por sete anos para elaborar esse romance, uma verdadeira montanha ( belíssima) de 422.
14 de jul. de 2005
A previsão de Cândido Mendes
Nesses dias de mensalão e corrupção no Palácio do Planalto, eu me lembrei de um argumento do cientista político Cândido Mendes, no final dos anos 90. Dizia o renomado cientista que o PSDB de Fernando Henrique estava preparando o governo para a entrada do PT, de Lula, para o próximo mandato, pois o trabalho principal da administração do PT seria o combate à corrupção, principal bandeira das administrações petistas municipais. Imagino quão arrependido deve estar por tais palavras e expectativas...
11 de jul. de 2005
Clubes de futebol e o timemania
Dizem que o " Timemania", nova raspadinha a ser lançada pelo Governo Federal, vai ser a solução para os clubes de futebol brasileiro. Não será. Vai ser a solução para o governo receber o dinheiro referente a dívidas do INSS, entre outros. Podemosa colocar aí uns oito anos, se tudo der certo. Vai permanecer a cartolagem, ou será que eles vão querer sair? Não vão. Ontem, no jogo entre Flamengo e São Paulo (o time de reservas, pois o principal vai disputar a finalíssima da Taça Libertadores) o Flamengo perdeu (2X0), gol contra de Júnior Baiano. Acabou, definitivamente para mim, o Flamengo. Vou ficar com aquele time mitológico, campeão de 82, e também com a seleção brasileira. E com o livro de Eduardo Galeano sobre futebol, da LPM (esqueci o nome do livro, mas é o registro de feitos fantásticos e maravilhosos sobre o futebol esse esporte encantatório).
10 de jul. de 2005
Autran Dourado e Raimundo Carrero: técnicas da ficção
Passei os olhos no novo livro de Raimundo Carrero, Os segredos da ficção, da Ed. Agir, e li recentemente A poética de romance, da Ed. Perspectiva, 1974, de Autran Dourado. São dois bons livros com grandes diferenças. Se alguém quiser conhecer a técnica da ficção, ou mesmo ter um bom instrumental para tornar-se um bom leitor, ler o livro de Carrero é uma ótima oportunidade. Ponto de vista, construção de personagem, cuidados e problemas da escrita. Uma leitura agradável que pretendo aventurar-me assim que puder. Em A Póetica de romance, parece-me que houve uma edição revista e atualizada (o exemplar que li era de 1794), não sei se houve uma mudança significativa. É um livro mais denso, mais reflexivo, testemunho de um fazer poético, do papel mesmo do escritor, do romance. É quase um desabafo escrito com a elegância e a força da narrativa de Autran Dourado, para mim um dos melhores autores da atualidade. Uma diferença fundamental entre os dois livros está na composição da personagem, (claro, há outras questões e pontos que os diferenciam também). Para Autran, a personagem deve estar a serviço da estrutura do romance, como uma grande imagem, ou metáfora, representativa da frase que seja capaz de resumir o romance. Carrero percebe na construção da personagem um item vital, destacando uma força capaz de sobrepujar a própria estrutura do romance. Vale a pena a leitura dos dois livros, ao menos para conhecer as técnicas da ficção.
4 de jul. de 2005
Paranóias e narrativas
Encontrei um site com um subtítulo no mínimo curioso: O lado negro da Net. Na verdade, um conjunto de paranóias, diversas teorias da conspiração, como, por exemplo, a de que o planeta Terra está parando o movimento de rotação (tem um link ensinando como se preparar para o evento, digo, a catástrofe), a inversão dos pólos (Norte e Sul) em 90 graus, arquivos do FBI sobre ETs etc. São narrativas fabulosas, dignas de um Peer Gynt, de uma Emília (aquela mesmo, do Sítio do Pica-Pau Amarelo...). O site é uma compilação de vários sites temáticos. Eis o endereço:
São Paulo Fashion Week
Finalmente acabou a São Paulo Fashion Week. Cada ano que passa a inserção de matérias, seja no jornal, na TV ou mesmo na Internet, aumenta. O tipo de abordagem das matérias são cada vez mais interessantes, do sensual a uma falsa intelectualidade. No site do Terra, por exemplo, algumas chamadas curiosas : "Veja Hickman ( modelo e hoje, apresentadora de TV) de bíquini", "desfile de modelo com os seios descobertos" e entrevista com estilistas quase que num tom ensaístico. Nesses tempos de pós-modernidade (o termo ainda é correto, usual? não sei...), assistindo algumas matérias, refletindo sobre o assunto, penso que hoje a forma é o conteúdo.
1 de jul. de 2005
Poesia e arquitetura em Cecília Meireles
Recentemente li Amor de Leonoreta, de Cecília Meireles. Na verdade, o livro era uma reunião de cinco pequenos e significativos livros da poeta, do início da década de 50. Conheci a autora através de sua crônicas e do livro, talvez sua obra máxima, O Romanceiro da Inconfidência. Mas voltemos ao primeiro livro enunciado aqui. O que me deixou deslumbrado foi o apuro, o cuidado com o verso, a perfeição de quem está esculpindo, entalhando na palavra mesmo, a poesia e a força da imagem e da música. Em Poemas escritos na Índia, sobre usa passagem por aquele país, impressiona o registro da viagem em versos. É possível visualizar e conhecer a Índia. Não eram somente versos ou poemas, porém crônicas, relatos, tal a sensação que me ocorreu ao terminar de ler. O trabalho poético da autora tem a aproximação com a arquitetura de que Ezra Pound sempre denotara. Para ele, a Poesia não deveria fazer parte da Literatura, mas da Arquitetura, devido ao apuro, rigor, constituição e imaginação de ambos os trabalhos. E ainda tem poeta, que se julga poeta, que não consegue fazer sequer uma escansão dos versos.
21 de jun. de 2005
Um documento poético
Assisti "Poeta de sete faces", de Paulo Thiago. Um documentário sobre a obra poética de Carlos Drummond de Andrade. Há um pouco de tudo: leitura de poemas, vida e obra do poeta. Em vários momentos há uma lentidão que imagino intencional, digno de Minas, do mineiro. Mas há belos instantes, flashes, como a casa em que o poeta nasceu, opiniões de Ferreira Gullar, as leituras de Zezé Motta, Antonio Calloni, Paulo Autran.
Meu objetivo era o de apresentar às minhas turmas do ensino médio. Conversar sobre poesia e poetas, algo que venho fazendo há um bom tempo. É certo que seria um desastre, pois não tem a agilidade de um clipe de música, elemento indispensável para a atenção dos meninos. Vou passar "O carteiro e o poeta". Este também não tem o ritmo dos clipes, mas é emotivo, de um humor fino e leve. Falta um pouco disso em "Poeta de sete faces".
6 de jun. de 2005
Malvados
É uma das melhores tiras de humor na internet, mas aquele humor ácido e corrosivo de Jules Feifner, Calvin e Haroldo, Angeli e tantos outros que deixaram saudades. Conheci por acaso em um blog sobre a América Latina (www.locoporti.zip.net). São duas personagens, desenhadas de maneira tosca, que discorrem e vivenciam vários assuntos, temas. Há uma quantidade boa para ler e se divertir. Não vejo em banca, mas acredito que em pouco tempo estará circulando em alguma revista. www.malvados.com.br é atualizado diariamente.
3 de jun. de 2005
Os ensaios de Joseph Brodsky
Joseph Brodsky é um poeta russo, vencedor do Nobel em 1987, morreu em 1996, nos EUA, país que adotou, inclusive a língua. Conheci-o através de seus ensaios, ou melhor, do livro de ensaios Menos que um, da Companhia das Letras, em 1995, numa resenha da Veja, escrita por Diogo Mainardi, o "Mini-mim" do finado Paulo Francis. Por que estou dizendo isso? Levei quase uma década para ler este livro. Lembro que naquela época comecei a ler e me senti perdido, com a sensação de que as palavras estavam ali, porém eu estava um tanto quanto distante. Achei melhor dar um tempo e o tempo foi nos aproximando novamente. Boa parte dos textos falam de uma Rússia que não existe mais, talvez seja interessante para um historiador, não para mim. Todavia restaram os textos literários que, sempre que possível, irei relê-los. Cada linha de texto desse autor guarda um impacto, uma grandeza de pensamento que até hoje surpreende-me. No ensaio " Catástrofes no ar", Brodsky comenta sobre as duas divisões que na literatura russa surgiram após Tolstoi e Dostoievski, de como este deixou marcas profundas e o outro serviu de molde para toda uma geração, no que agradou, e muito, ao comitê soviético. De quebra, narra o panorama literário até a década de 80 ( os ensaios, em sua maioria, são dos anos 80). Não bastasse isso, discute também a arte literária, os caminhos que aos escritores se apresentam. Não quero descrever mais. Vou destacar uma passagem como exemplo:
"Existem, grosso modo, dois tipos de homens e, da mesma maneira, dois tipos de escritores. O primeiro tipo, sem dúvida a maioria, considera que a vida é a única realidade de que dispomos. Transformada em escritor, essa pessoa irá reproduzir esta realidade nos seus mais ínfimos detalhes... Fechar seu livro é como chegar ao fim de um filme... O segundo tipo, a minoria, percebe a sua própria vida, e a de qualquer outro, como um tubo de ensaio para certas qualidades humanas, cuja manutenção sob pressão extrema é crucial para uma versão eclesiástica ou antropológica do advento da espécie. Como escritor, um homem deste tipo não mostrará muito em matéria de detalhe; em vez disso, vai descrever os estados e as guinadas da psique de seus personagens com tal profundidade que você agradece por nunca tê-lo conhecido em pessoa. Fechar seu livro é como acordar de manhã com o rosto mudado." (pág. 112)
Há muitas e muitas passagens que valem uma releitura para novas descobertas. Fico apenas imaginando como deve ser o trabalho poético deste autor...
30 de mai. de 2005
Pega na mentira!!!
Tornado no interior paulista, com grande prejuízo na lavoura. Não teve jeito: caiu mais uma mentira. Passei todo o período escolar ouvindo que no Brasil não havia tornado, furacão... Ano passado tivemos um furacão de porte médio na região Sul. Outra mentira? Está na África. Melhor, nas duas Áfricas: África branca e, mais embaixo, a África negra. Hoje ninguém tem coragem de afirmar tal separação. Estudei isso em Geografia e me sinto enganado.
13 de mai. de 2005
O mar
Salim Miguel decididamente é um dos melhores autores brasileiros da atualidade. Sabe construir uma narrativa densa sem perder a delicadeza. Em Mare nostrum, da editora Record,2004, um romance " desmontável", como o póprio autor sugere, temos a sensibilidade de personagens carismáticas como seo Neno e a força bruta e misteriosa do mar, presente em todos os capítulos. Não há necessariamente uma ordem para a leitura, é possível ler a partir de várias frentes, mas o que faz com que não se torne simplesmemte um livro de contos são os pontos de contatos presente por toda a narrativa. Lembrou-me bastante de uma canção do grupo musical português Madredeus, que poderia servir como uma bela trilha sonora. Está no CD O espírito da paz, de 1994. A música se chama "O mar":
O mar
Não é nenhum poema
o que vos vou dizer
nem sei se vale apena
tentar-vos descrever
o mar
o mar
e eu aqui fui ficando
só para o poder ver
e fui envelhecendo
sem nunca perceber
o mar
o mar
Pedro Ayres Magalhães
Quem melhor do que os portugueses para entender a poética do mar?
3 de mai. de 2005
O mais belo enigma do Oriente é a cultura árabe
Quem conhece Alberto Mussa? Infelizmente poucos, eu acho. Tive a sorte do meu amigo Henrique insistir na leitura desse escritor severamente desconhecido. Ele é autor de um romance interessante: O enigma de Qaf, da Record, publicado em 2004. A narrativa é um passeio pela língua árabe e as mitologias que cercam essa cultura exótica aos nossos olhos. Lembra vagamente Borges com a exploração de uma lógica absurda, complexa e encantatória em muitos de seus textos, mas trata-se da cultura, da própria língua e da sofisticação do estudo da poesia pré-islâmica, o ponto forte. Há também o enigma, o autor não favorece com as pistas, porém, sinceramente, quem se importa? Estão lá situações, personagens como Xerazade e tantos outros, que o enigma pode ser desvendado numa próxima releitura. Vale a pena.
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