22 de jul de 2005

A montanha da alma

Só o título já merecia a leitura do livro. A montanha da alma, de Gao Xingjian, da Objetiva, é um romance que contempla a China nos anos 70. Gao Xingjian é radicado na França e foi vencedor do prêmio Nobel de 2000. A história é ínfima: um viajante percorre o interior da China em busca da "Montanha da alma". A narrativa é sustentada por diversas vozes em 1a, 2a e 3a pessoas, e formas literárias diversas como o relato, o ensaio, canções populares. De fato, os personagens estão submetidos à estrutura do romance, a preocupação é discutir a cultura chinesa os dramas do Homem referentes à morte, nascimento, arte. É uma obra aberta, dividida em pequenos capítulos que poderiam continuar quase que infinitamente ( um problema apontado por Massaud Moisés, crítico literário. O drama do romance não é começar mas terminar!). Essa multiplicidade de vozes, de início, confundem o leitor, porém ao longo do texto o próprio narrador explicita sobre o assunto: existe somente um Eu, dividido em várias vozes. Vale a pena ler não somente para conhecer a China cultural, mas principalmente pelo trabalho de artesão so escritor. Aliás, não é à toa que o autor trabalhou por sete anos para elaborar esse romance, uma verdadeira montanha ( belíssima) de 422.

14 de jul de 2005

A previsão de Cândido Mendes

Nesses dias de mensalão e corrupção no Palácio do Planalto, eu me lembrei de um argumento do cientista político Cândido Mendes, no final dos anos 90. Dizia o renomado cientista que o PSDB de Fernando Henrique estava preparando o governo para a entrada do PT, de Lula, para o próximo mandato, pois o trabalho principal da administração do PT seria o combate à corrupção, principal bandeira das administrações petistas municipais. Imagino quão arrependido deve estar por tais palavras e expectativas...

11 de jul de 2005

Clubes de futebol e o timemania

Dizem que o " Timemania", nova raspadinha a ser lançada pelo Governo Federal, vai ser a solução para os clubes de futebol brasileiro. Não será. Vai ser a solução para o governo receber o dinheiro referente a dívidas do INSS, entre outros. Podemosa colocar aí uns oito anos, se tudo der certo. Vai permanecer a cartolagem, ou será que eles vão querer sair? Não vão. Ontem, no jogo entre Flamengo e São Paulo (o time de reservas, pois o principal vai disputar a finalíssima da Taça Libertadores) o Flamengo perdeu (2X0), gol contra de Júnior Baiano. Acabou, definitivamente para mim, o Flamengo. Vou ficar com aquele time mitológico, campeão de 82, e também com a seleção brasileira. E com o livro de Eduardo Galeano sobre futebol, da LPM (esqueci o nome do livro, mas é o registro de feitos fantásticos e maravilhosos sobre o futebol esse esporte encantatório).

10 de jul de 2005

Autran Dourado e Raimundo Carrero: técnicas da ficção

Passei os olhos no novo livro de Raimundo Carrero, Os segredos da ficção, da Ed. Agir, e li recentemente A poética de romance, da Ed. Perspectiva, 1974, de Autran Dourado. São dois bons livros com grandes diferenças. Se alguém quiser conhecer a técnica da ficção, ou mesmo ter um bom instrumental para tornar-se um bom leitor, ler o livro de Carrero é uma ótima oportunidade. Ponto de vista, construção de personagem, cuidados e problemas da escrita. Uma leitura agradável que pretendo aventurar-me assim que puder. Em A Póetica de romance, parece-me que houve uma edição revista e atualizada (o exemplar que li era de 1794), não sei se houve uma mudança significativa. É um livro mais denso, mais reflexivo, testemunho de um fazer poético, do papel mesmo do escritor, do romance. É quase um desabafo escrito com a elegância e a força da narrativa de Autran Dourado, para mim um dos melhores autores da atualidade. Uma diferença fundamental entre os dois livros está na composição da personagem, (claro, há outras questões e pontos que os diferenciam também). Para Autran, a personagem deve estar a serviço da estrutura do romance, como uma grande imagem, ou metáfora, representativa da frase que seja capaz de resumir o romance. Carrero percebe na construção da personagem um item vital, destacando uma força capaz de sobrepujar a própria estrutura do romance. Vale a pena a leitura dos dois livros, ao menos para conhecer as técnicas da ficção.

4 de jul de 2005

Paranóias e narrativas

Encontrei um site com um subtítulo no mínimo curioso: O lado negro da Net. Na verdade, um conjunto de paranóias, diversas teorias da conspiração, como, por exemplo, a de que o planeta Terra está parando o movimento de rotação (tem um link ensinando como se preparar para o evento, digo, a catástrofe), a inversão dos pólos (Norte e Sul) em 90 graus, arquivos do FBI sobre ETs etc. São narrativas fabulosas, dignas de um Peer Gynt, de uma Emília (aquela mesmo, do Sítio do Pica-Pau Amarelo...). O site é uma compilação de vários sites temáticos. Eis o endereço:

São Paulo Fashion Week

Finalmente acabou a São Paulo Fashion Week. Cada ano que passa a inserção de matérias, seja no jornal, na TV ou mesmo na Internet, aumenta. O tipo de abordagem das matérias são cada vez mais interessantes, do sensual a uma falsa intelectualidade. No site do Terra, por exemplo, algumas chamadas curiosas : "Veja Hickman ( modelo e hoje, apresentadora de TV) de bíquini", "desfile de modelo com os seios descobertos" e entrevista com estilistas quase que num tom ensaístico. Nesses tempos de pós-modernidade (o termo ainda é correto, usual? não sei...), assistindo algumas matérias, refletindo sobre o assunto, penso que hoje a forma é o conteúdo.

1 de jul de 2005

Poesia e arquitetura em Cecília Meireles

Recentemente li Amor de Leonoreta, de Cecília Meireles. Na verdade, o livro era uma reunião de cinco pequenos e significativos livros da poeta, do início da década de 50. Conheci a autora através de sua crônicas e do livro, talvez sua obra máxima, O Romanceiro da Inconfidência. Mas voltemos ao primeiro livro enunciado aqui. O que me deixou deslumbrado foi o apuro, o cuidado com o verso, a perfeição de quem está esculpindo, entalhando na palavra mesmo, a poesia e a força da imagem e da música. Em Poemas escritos na Índia, sobre usa passagem por aquele país, impressiona o registro da viagem em versos. É possível visualizar e conhecer a Índia. Não eram somente versos ou poemas, porém crônicas, relatos, tal a sensação que me ocorreu ao terminar de ler. O trabalho poético da autora tem a aproximação com a arquitetura de que Ezra Pound sempre denotara. Para ele, a Poesia não deveria fazer parte da Literatura, mas da Arquitetura, devido ao apuro, rigor, constituição e imaginação de ambos os trabalhos. E ainda tem poeta, que se julga poeta, que não consegue fazer sequer uma escansão dos versos.