27 de nov de 2006

Memórias e noites: o livro de contos de Marcelo Moutinho

O livro de contos, Somos todos iguais nesta noite, de Marcelo Moutinho, se destaca pela delicadeza extraída a partir de situações aparentemente banais, sobretudo na primeira parte, "Iguais". Neste conjunto, é possível perceber elementos de uma memória social que pontuam cada um dos contos, lembrando, em muitos momentos, trabalhos acadêmicos como Memória e sociedade, de Ecléa Bosi. Convém destacar que o livro de contos não somente resgata, mas partilha com o leitor; o título (tirado de uma canção, creio eu), muito feliz, nos envolve na construção das tramas: "somos todos iguais...". Na segunda parte, "Noites", há um pouco do elemento fantástico, algo do realismo mágico, porém sobressai temas que muitas vezes, são ou foram agregados ao mito da "noite", como, por exemplo, a solidão, o mistério, entre outros. Tal título, da segunda parte, não agrega uma experiência singular, antes diversifica. A singularidade ocorre no termo "nesta", no título do livro, momento único em que autor e leitores agregam-se sob o manto indefinido da memória e do noturno. O melhor conto do livro que traduz todas essas possibilidades aqui destacadas, em minha opinião, é "Rosa noturna". Também gostaria de pontuar o conto "Desfile", não somente pelo tema do carnaval (e sobre carnaval e literatura temos pouco), mas principalmente pela construção dos diálogos, que permitiu uma fusão entre forma e conteúdo bem elaborada. Quem acompanha o trabalho de Marcelo Moutinho percebe o crescimento e o amadurecimento literário em Somos todos iguais nesta noite.

20 de nov de 2006

O coronel e o lobisomem: o livro, não o filme

Esqueçam o filme, estrelado por Diogo Vilela, Ana Paula Arósio, entre outros. O livro, escrito por José Cândido Carvalho em 1964, é um clássico e é muito bom. Narrado no início do século XX pelo seu principial personagem, Ponciano de Azeredo Furtado, apresenta a decadência do coronelismo em detrimento das novas relações político-financeiras da burguesia insurgente, através da ótica do maravilhoso. O romance é narrado em primeira e terceira pessoa pelo próprio Ponciano. Não chega a ser absurdo se você lembrar das entrevistas que Edson Arantes do Nascimento dava falando sobre Pelé, aliás, o próprio. Há uma sucessão de "causos" que muitas vezes lembra Alexandre e outros heróis, de Graciliano Ramos, porém ao final concentra-se no processo de falência como reflexo da decadência do coronelismo, culminando na morte, ou melhor, nas "duas mortes" do coronel, a real e a fantástica. Perfila uma galeria de personagens prosaicos caracterizando uma dualidade campo/cidade, mítico/real, caracterizado pelo modo narrativo EU/Ponciano, ELE/Coronel Ponciano. Todavia a beleza e o encantamento do texto está na linguagem do romance, muito mais uma que uma paródia do discurso de Guimarães Rosa, alguém poderia dizer, trata-se mais de um refinamento da linguagem pancrônica do autor de Grande sertão: veredas. Há o uso literário da linguagem do interior, concentrando-se em processo de formação sufixal, sobretudo de adjetivos (tristoso etc.) e advérbios, mantendo um ritmo poético e dinâmico para o texto. O entrelaçamento das duas pontas (real/mítico) a partir do jogo de linguagem, aliado à construção do personagem Coronel Ponciano é o grande trunfo de José Cândido.
O filme recria uma parte pequena do romance, estabelecendo uma nova trama, nem de longe poderíamos dizer que se trata de um resumo, uma adaptação. Achei o filme bom... Mas o livro é bem melhor.